DOI: 10.5752/p.2358-3428.2025v29n65p146-164

Abstract

Este trabalho tem como objetos de estudo os contos “Os desastres de Sofia”, de Clarice Lispector, e “Nós matamos o Cão-Tinhoso”, de Luís Bernardo Honwana, ambos publicados em 1964, ano marcado por intensas transformações políticas e sociais, tanto no Brasil quanto em Moçambique. Partindo dessa coincidência histórica e literária, o objetivo central é analisar de que maneira essas narrativas podem ser compreendidas como “narrativas de resistência”, conforme proposto por Alfredo Bosi em seu artigo “Narrativa e resistência” (2002). Para isso, a análise busca identificar a presença de vozes em processo de resistência no interior dos textos, seja nas vivências e tensões experimentadas pelos protagonistas, seja na forma como a estrutura narrativa organiza, silencia, revela ou desloca perspectivas. Em Clarice Lispector, interessa observar como a consciência infantil de Sofia desafia normas, verdades e expectativas impostas pelo mundo adulto. Já em Honwana, a violência colonial, inscrita nas relações sociais, ganha visibilidade pela fala coletiva das crianças, que expõem e, ao mesmo tempo, reagem ao sistema opressor. Em ambas as narrativas, a vida dos protagonistas não é apresentada como algo plenamente dado, mas como um objeto de busca e construção, evidenciando um movimento contínuo de resistência — às convenções, às hierarquias, às formas instituídas de poder e de interpretação do mundo. Assim, este artigo pretende demonstrar como essas obras expressam modos de resistência tanto em seu conteúdo temático quanto em seus procedimentos formais, reafirmando a literatura como espaçode questionamento, invenção e liberdade.

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FERREIRA, S. Narrativa e resistência em clarice lispector e luís bernardo honwana. Scripta-Revista Internacional de Literatura i Cultura Medieval i Moderna-International Journal of Medieval & Modern Literature & Culture, 2026.